1. 1. A cetamina vem ganhando destaque no tratamento da depressão resistente. Em quais casos esse tipo de terapia costuma ser indicado e o que diferencia esses pacientes dos quadros mais comuns de depressão?
– a cetamina foi estudada para depressão resistente por que é uma parcela significativa de pacientes de sofrem depressão. A depressão já é bem prevalente na sociedade, independente de classe social, atinge até 20% das pessoas durante a vida. E os dados de recuperação com antidepressivos não são muito animadores, revisão de grandes trabalhos como o STAR-D, mostram que até 65% das pessoas que usam diversos medicamentos orais não respondem bem a terapia farmacológica. Nosso alvo sempre é a remissão completa de sintomas, a pessoa voltar a ser quem ela era antes de adoecer, mas isso, é conquista para poucos que usam medicação oral.
Todos que não respondem a sequencia de psicoterapia, exercício físico e ao teste do dois medicamentos orais, são classificados como depressão resistente, pois a chance de resposta no terceiro ou quarto medicamento é muito baixa, coisa de 10-15% somente.
São essas pessoas que tratamos com cetamina, o que acaba sendo a maioria dos que sofrem por depressão, não a exceção.
2. Como a cetamina atua no cérebro de forma diferente dos antidepressivos tradicionais, e por que ela pode apresentar resultados mais rápidos em alguns pacientes?
Os antidepressivos tradicionais sempre atuam da mesma forma, dentro do mesmo contexto – modificar níveis de serotonina, dopamina e noradrenalina no cérebro. Mas sabemos que depressão não é falta ou desbalanço de nenhum desses neurotransmissores. Essa teoria já foi desmentida no campo cientifico há muitos anos.
A cetamina atua de forma diferente e apesar de ser uma medicação antiga, atua de forma mais moderna no cérebro. Ela atua na atividade cerebral diretamente, reduz a atividade elétrica do cérebro momentaneamente, atua sobre receptores de glutamato, um neurotransmissor excitatório do cérebro, e reduz a atividade em pontos específicos do cérebro que levam aos sintomas depressivos como hipocampo, habênula lateral e locais específicos do quadro ansioso como a amigdala cerebral. É uma ação única, potente, rápida e segura quando bem realizada.
O sistema do glutamato, mostra resposta antidepressiva em 75% das pessoas, reduz a ideação sucida em 84% das pessoas tratadas em um período muito curto, temos da primeira infusão a recuperação do paciente em 2 semanas. Algo impensável com medicação oral e que muda totalmente o paradigma de tratamento da saúde mental.
3. Existe muito debate sobre segurança e possíveis efeitos colaterais da cetamina. Quais são os principais cuidados que precisam ser tomados antes, durante e após a aplicação?
Cetamina ou escetamina, são moléculas irmãs gêmeas e muitas vezes usamos como iguais porque os resultados do seu uso são idênticos, é uma medicação extremamente segura, desde que nas mãos certas. É um anestésico em sua essência, tem a capacidade de levar uma pessoa à anestesia geral em altas doses, e por isso merece todo o respeito que algo tão poderoso merece.
Primeiro, procure alguém com muita experiencia em tratamento com cetamina.
Procure um medico anestesista, que é o médico com experiencia em cuidados com a medicação e com pessoas anestesiadas e sedadas, além de ser o medico certo para tratamento de qualquer intercorrência que venha acontecer com anestésicos.
Durante a aplicação, e isso é regulamentação do conselho de medicina, deve haver um médico sentado do seu lado, dentro da sala, o tempo todo. Você deve estar monitorizada com oxímetro, medidor de pressão arterial automático e analisador de coração, durante o tempo todo. O procedimento é considerado um ato anestésico, uma sedação, pelo conselho de medicina e deve ter documentação como avaliação pre-anestésica, ficha anestésica e recuperação e alta documentados. Sem isso, todos os envolvidos correm riscos, o paciente pela negligência medica, e o medico pela falta de registro e informação para tomar decisões corretas.

A cetamina muda duas coisas fundamentais: é a única medição que é capaz de tratar depressão, transtorno bipolar, ansiedade e ideação suicida em poucos dias, e em alguns casos, horas. Essa rapidez é sem precedente no armamento da medicina contra transtornos mentais.
Outra capacidade impressionante e emocionante é a redução e ate a extinção das ideias de auto-exterminio em horas após a aplicação. Estudos usando pacientes de mundo real mostram que após a primeira sessão 64% dos pacientes já reduzem drasticamente seus pensamentos de morte e suicídio que estavam tao sólidos e roubando a vida dessas pessoas.
Não há efeitos colaterais de longo prazo com o uso de cetamina, não engorda, não causa alteração de metabolismo, não da tremor, não perde libido, não altera o habito intestinal, algo único no tratamento da depressão e transtorno bipolar.
Essa eficácia, segurança, rapidez e robustez, é incomparável entre todos os tratamentos disponíveis.
5. Apesar dos resultados promissores, ainda existem preconceitos ou desinformação sobre o uso da cetamina na medicina. O que a população precisa entender sobre a diferença entre o uso terapêutico e o uso recreativo da substância?
O desvio do uso da cetamina para abuso existe e precisa ser encarado de frente. Precisa ser dissecado para dividir o tratamento do abuso. Não há registros na literatura medica de que alguém tenha começado o uso no tratamento medico , e essa é uma medicação que usamos em anestesia desde 1970, e tenha se tornado viciado e procurou o uso recreativo após o tratamento. Todos os registros de abuso começam na rua, começam de forma recreativa e com múltiplas drogas. Diferente de medicações que causam abuso como clonazpam, alprazolam, zolpidem ou anfetaminas, que o inicio do uso vem por prescrição e tornam-se um problema, a cetamina não migra do consultório para o abuso.
Isso exposto, o preconceito vem da falta de divulgação ampla, da naturalização do médico em encaminhar, discutir e utilizar essa medicação no tratamento da pessoa que sofre. Seja por desconhecimento ou medo de utilizar, o profissional que não inclui ela no seu armamento, usa armamentos antigos contra a depressão, pensamentos suicidas, transtorno bipolar e ansiedade grave.











